EA, devo dizer que já há algum tempo também mudei de opinião e também a queria manifestar aqui no blog...Inicialmente sempre pensei que votaria sim, desde 1998 que tinha esta opinião, porque apesar de ser contra o aborto achava que só cada pessoa é que pode julgar a sua situação. Mas agora penso que ninguém pode ter o direito sobre a vida de ninguém. Por ex., na eutásia, eu estaria decidir sobre o destino da minha própria vida (e mesmo assim ainda não se fala em liberalizar a eutanásia) mas no aborto, estou a decidir sobre a vida ou morte de outra pessoa.
Este é um assunto que incomoda muita gente, e as pessoas preferem não pensar muito nisso, dizer apenas de defendem a democracia, a liberdade e a tolerância, que não podemos julgar os outros e cada um deve fazer o que entender.
Mas temos que encarar de frente e pôr o dedo na ferida. E ver que na verdade esta nova lei não vai apenas despenalizar a mulher, mas também vai conferir o direito ao aborto, já que vai passar a ser um dever do Estado pagar os abortos. Na Holanda, por ex., existe a despenalização das drogas, mas não o direito às drogas, o Estado não é obrigado a dar drogas a ninguém. Mas com esta lei o aborto vai passar a ser um tratamento médico como outro qualquer a que todos têm direito - mais pessoas nas listas de espera.
E mais. Pegando num exemplo aqui da vizinhança: o hospital de Vila do Conde vai fechar, mesmo sabendo que o hospital da Póvoa já está pelas costuras. O aborto legal só se vai poder fazer até às 10 semanas, ou seja, não pode esperar. Quer dizer que muita gente doente, e sem recursos para pagar aos privados, vai ter que esperar ainda mais pelos tratamentos e operações (quem sabe até morrer na espera), para dar prioridade aos abortos.
Se queremos liberalizar "para sermos avançados como muitos países da Europa", então que comecem pela base, as estruturas de saúde, caso contrário vai ser um caos. Pessoalmente acho que o direito a tratamentos de sáude se sobrepõe ao direito ao aborto.
A questão da clandestinidade: querer liberalizar o aborto porque "o aborto clandestino é uma vergonha", é uma incongruência total. Então já agora vamos liberalizar todas as coisas más que são vergonha em Portugal, como já disse a EA.

A questão da vida: às 10 semanas é ser humano ou não é? Já está provado que a partir dos 18 dias bate o coração, e desde as 6 semanas que há actividade cerebral visível.
(na foto, um feto com 10 semanas)
A questão da pobreza: se não se tem condições para criar o filho, existem as instituições de apoio familiar e em última instância a adopção. O Estado tem que investir nestas estruturas e não nos abortos (quer-me parecer é que lhe ficaria mais caro, e optam pelo mais fácil)...Mas mesmo que a minha vida fosse ser difícil, eu quereria viver, vocês não? A lei da vida é a primeira de todas!
A questão da penalização: o professor Marcelo vai votar não, porque apenas concordaria com a despenalização, quando na verdade não é só isso que a lei vai aprovar. Por isso, se formos da mesma opinião que o professor Marcelo e o movimento do "Assim Não", votamos não, mesmo concordando apenas com a despenalização. Mas podemos ir mais longe. A minha mãe trabalha na prisão de Custóias, e diz que há lá pessoas presas por ninharias, como conduzir sem carta...Então e impedir uma pessoa de viver é menos grave?...Uma mulher se roubar comida para dar ao filho, pode ir presa. Então e uma mulher que mata o filho antes de ele nascer, já deve estar dentro da lei?
Existem imensas razões compreensíveis para as pessoas terem cometido crimes (pobreza, famílias desestruturadas, distúrbios mentais) e que funcionam como atenuantes de pena, aliás, essas atenuantes são a razão porque há mais de 30 anos nenhuma mulher é condenada por fazer aborto. Mas essas razões não implicam que se despenalize o roubo, a condução sem carta, o aborto ou outros crimes.
Dizem que ninguém será obrigado a fazer o aborto, e os que não concordam, que não façam. Ok, esta era uma das razões porque eu ia votar sim, mesmo sendo contra. Mas temos que ver a lei define o que é certo e errado numa sociedade, define os valores e a ética dessa sociedade, e esta lei tornaria o aborto algo correcto, legítimo e ético. Um direito. Maior que o direito à vida. Com tudo isto, acrescido aos argumentos já ditos pela EA, devemos questionar-nos: Será o direito ao aborto maior que o direito à vida?
Eu acho que não.